24 de jul de 2014

Uma visita

Olho para a entrada, piso no capacho.

Tenho certeza que faz (pelo menos) uma vida que não venho até aqui.
Neste momento paralelo da realidade, gostaria de lhe contar que envelheci.

Encontrei um bom moço, com bom humor, com bom caráter, com bom coração. Bom demais da conta. Queria lhe contar que é bom demais dividir o mesmo teto com ele. Encontro em seu peito o silêncio do mar, meu porto seguro, minha água calma. Também encontro em seu peito uma coragem inspiradora, uma alegria radiante, sentimentos jovens.

Temos agora nosso lar. Levei na mala algumas manias, muitos livros, ansiedades, sonhos bem embrulhados, action figures e algumas roupas.

Temos nossas plantas. Pequenas vidas que, como nós, tem frágeis e iniciantes raízes crescendo num vaso com terra nova. Descobri que precisamos de cuidados todos os dias. Com água, com amor, com compreensão e luz. Vamos bem.

Tinha certeza que fazia (pelo menos) uma vida que não vinha até aqui.
Foi bom sentar nesta poltrona de veludo verde, recheada de lembranças outonais de outrora.

Eu volto, talvez nesta ou em alguma vida paralela, pra tomar chá.

20 de set de 2013

pra Lugar Nenhum

na ponta dos pés
ela gira incessantemente
na ponto dos pés
apesar dos tropeços
apesar dos dedos tortos
ela gira incessantemente
quando o melhor que se tenta ser
não é o melhor que se pode ser
na ponta dos pés
o início e o fim no mesmo lugar
na ponta dos pés

18 de jun de 2013

Pés saudosistas

Eu tenho saudade de quando meus pés eram mais livres. Eles iam pra muitos lugares sim, caminhavam por horas a fio às vezes, mas estavam "ganhando chão", colorindo novos caminhos todos os dias.

Tenho saudades de quando meus pés podiam sentir a grama e parar comigo, pelo menos uma vez ao dia, embaixo de uma árvore frondosa. Eu deitava, eles ficaram em pé finalmente. Às vezes, antes das aulas, se eles fossem ligeiros como Hermes, eu podia alimentar os olhos e alma com alguma leitura interessante ou mesmo com o pôr-do-sol.

Não era fácil necessariamente. Os pés passavam por três "empregos" diferentes, corriam para o bandeijão pra jantar, já que não havia nenhum tipo de espaço para almoço. Era cansativo e o futuro, em certos aspectos, era tão nítido quanto uma fina corda bamba na minha frente. Mas, o Futuro era muito mais velho que eu. Ele caminhava distante. Nos ombros do presente só podia vislumbrar a sua silhueta. O presente que vos falo tornou-se passado, como uma parede de ladrilhos, fragmentos do Eu, momentos.


Eu tenho saudades.


Saudades das boas memórias que construí, das maravilhas que já vivi, de pessoas que conheci. Eu tenho sim, não me importo se acham velho ou empoeirado pensar assim. Por que não poderia ter saudade de mim?